top of page

A vez da natureza

22 de set.
4 min de leitura

Tendência | Joias e bijuterias


Polida, entalhada ou envelhecida, ela chega às bijuterias das próximas estações e abre espaço para sementes, reaproveitamento e muita brasilidade.




A madeira ganha lugar de destaque nas bijuterias das próximas estações. De acordo com o relatório de tendências assinado por Isadora Besson, o material aparece em acabamentos variados, do polido e envernizado, com brilho evidente, ao fosco, escurecido ou com aspecto envelhecido, e ganha presença no acessório por meio de entalhes, relevos e formas esculpidas, que colocam o trabalho manual em primeiro plano.


Entre as referências internacionais, Caribbean Fashion Collective e Sabyasachi preservam o aspecto natural da madeira e a combinam com metais, pedras e contas coloridas, enquanto Bibhu Mohapatra aposta em pulseiras lisas e polidas, em diferentes cores e tonalidades. Egonlab mostra a madeira escura esculpida em relevo, com ar de peça antiga, e Kidsuper Studios leva o material para o pingente de formato orgânico. A tendência comporta tanto peças simples, resolvidas com tingimento, pintura ou verniz, quanto acessórios de maior valor agregado, construídos com entalhe, escultura e combinação de materiais.




Um sotaque brasileiro

Para quem cria moda no Brasil, esse movimento chega com vantagem, porque o país tem uma flora imensa e uma tradição antiga de adornos feitos com madeira, sementes, cascas e fibras. Boa parte desse repertório está reunida em Artesanato sustentável: natureza, design & arte, de Monica Carvalho, publicado pela Editora Senac São Paulo, um livro que funciona como mapa para quem quer dar à tendência um acento nacional.


A autora apresenta espécies de diferentes biomas e mostra como cada uma pode virar adorno. Da Amazônia vêm o açaí, a arara-tucupi, a castanha-do-pará, o fruto-moeda, o inajá e a jarina; do Cerrado, o tento, o tingui, o murici e o olho-de-boi. Algumas conversam diretamente com a madeira, como a arara-tucupi (Parkia pendula), cuja madeira, segundo o livro, “embora um pouco pesada, é macia, fácil de cortar e durável quando aplicada em interiores”, e cujas sementes escuras e alongadas já aparecem em colares, pulseiras e brincos.


Semente e madeira, uma boa dupla

As sementes são o caminho mais natural para somar brasilidade à tendência. Contas de madeira polida alternadas com açaí, pingentes entalhados presos a fios de jarina ou pulseiras lisas combinadas com tento vermelho criam peças que dialogam com as passarelas internacionais sem perder a identidade local.


O livro traz um exemplo que serve de ponto de partida, um colar longo com sementes de arara-tucupi e chips de coco montado em linha encerada, com furos feitos em microrretífica e broca bem fina. A autora sugere variações com outras combinações, como murici com tamboril, flamboyant com paxiubão e tento com açaí, o que mostra como uma mesma construção pode render uma família inteira de peças apenas com a troca de cores e texturas.

O acabamento pesa tanto quanto a escolha do material. As sementes de açaí, observa a autora, ficam mais claras depois de polidas, e o mesmo raciocínio vale para a madeira, que muda de caráter conforme recebe verniz, tingimento ou lixa. Não por acaso, o livro lembra que designer e artesão devem saber de antemão que “o acabamento é a base para diferenciar o bom artesanato”.



Sustentável além da matéria

Usar material natural é só o começo. O livro mostra que a sustentabilidade de uma peça depende também de como ela é colhida, de quem a produz e de quanto se aproveita no caminho. No Acre, a autora conviveu com moradores da floresta que já entendem a importância de coletar as sementes corretamente, deixando parte delas no chão para que germinem e garantam a próxima safra. Esse cuidado com o ciclo da planta é o que permite que a matéria-prima continue existindo.


A dimensão humana também entra na conta. Segundo a autora, o artesanato no Brasil é feito principalmente por mulheres, muitas delas organizadas em cooperativas, onde dividem ideias, técnicas e ganhos. Quando uma marca trabalha com esses grupos, a tendência passa a gerar renda e a valorizar saberes locais, e o livro reforça que essa troca beneficia os dois lados, já que “tanto o designer quanto o artesão têm muito a aprender um com o outro”.

Há ainda a questão do preço justo. Ao descrever uma bolsa feita com fruto-moeda, o livro explica que as sementes precisam ser separadas pelo tamanho e pelo “estado de saúde”, e que nessa seleção se perde muita matéria-prima. Uma única capa de almofada de 40 cm x 40 cm consome 10 metros de linha encerada e 80 frutos-moeda, uma conta que ajuda a entender o tempo e o valor por trás de cada peça.

BOX | Reaproveitar também é tendência

A estética da madeira e das sementes combina muito bem com materiais que ganham uma segunda vida. Algumas ideias para quem quer ir além da matéria-prima nova:

Sobras de marcenaria. Retalhos de móveis, pallets e cortes que iriam para o descarte rendem contas, pingentes e argolas. Peças pequenas pedem pouco material e muito acabamento.


Madeira de demolição. Portas, tacos e vigas antigas já trazem as marcas do tempo e entregam de forma natural o efeito envelhecido que a tendência pede.


Galhos, cascas e cocos. Galhos caídos, cascas de coco e cabaças podem ser cortados, lixados e polidos, criando formas orgânicas únicas.


Plásticos limpos. Tampinhas, frascos e embalagens bem lavados e separados podem virar contas e detalhes coloridos, fazendo contraponto às texturas naturais, assim como as contas coloridas das referências internacionais. Prefira cortar, furar e lixar a derreter, e, se houver aquecimento, trabalhe em local bem ventilado.


Mistura consciente. Ao combinar materiais, pense também no fim da vida da peça. Fechos e fios fáceis de separar permitem consertar, reaproveitar ou reciclar cada parte depois.


Criar com o que a terra oferece

A madeira abre uma porta larga nas próximas estações, e o Brasil tem muito a mostrar por ela. Com sementes nativas, materiais reaproveitados, acabamento caprichado e parceria com quem conhece a matéria-prima de perto, a tendência ganha identidade própria e uma história que vale a pena contar em cada peça.


Serviço

Artesanato sustentável: natureza, design & arte. Monica Carvalho. Editora Senac São Paulo. Disponível em versão impressa e e-book.

Fotos: divulgação


Comentários


bottom of page