Bolsas: da textura à forma
Atualizado: 22 de set.
A temporada traz duas maneiras de renovar um clássico do guarda-roupa. De um lado, o franzido, que enche as bolsas de textura, volume e movimento. Do outro, o formato trapézio, que aposta na geometria e na estrutura. Duas ideias diferentes, um mesmo convite: usar a tendência como ponto de partida para peças autorais, com a cara de quem faz.
Por Canal Craft
Franzidos, para que te quero
Os franzidos ganham força nas bolsas das últimas temporadas e trazem consigo três palavras que combinam muito com o trabalho manual: textura, volume e movimento. O recurso apareceu também em calçados, de uma sapatilha da Gucci a tênis de pegada retrô, mas aqui o foco são as bolsas. Nelas, o franzido chega de forma ora decorativa, ora estrutural, aplicado ao corpo da peça, às alças ou à boca da bolsa, sempre atualizando modelos tradicionais com uma superfície mais volumosa e gostosa de tocar. Entre os materiais mais vistos estão os couros macios e tecidos como o cetim e o nylon.
Para o artesão, o franzido é um velho conhecido que reaparece com cara nova. A técnica de reunir o material em pregas, amassados ou ondulações já vive nas costuras, nos bordados e no trabalho com tecido, couro e fibras. O que a tendência sugere não é uma receita a ser copiada, e sim um repertório de ideias para experimentar na sua própria linguagem. Vale testar diferentes níveis de franzimento, do efeito bem sutil, quase um respiro na superfície, até construções mais marcadas, que transformam a peça em pura textura. Cada mão franze de um jeito, e é justamente aí que mora a assinatura de quem cria.
Shape Trapézio, para todos os gostos
Se o franzido aposta na textura, o Shape Trapézio aposta na forma. Ele ganha força como uma atualização dos modelos clássicos de bolsa: a base é simples, mais larga na boca e afinando embaixo, mas rende muitas leituras. Pode ser compacta ou ampla, vertical ou alongada, o que faz dele um formato para todos os gostos. É um daqueles pontos de partida generosos, que acomodam desde o couro trançado até a lona pintada à mão.
O charme do trapézio está em equilibrar sofisticação e funcionalidade sem depender de excesso de detalhes. Ele conversa com formatos que o artesão já conhece, como a bowling, a tote e a chamada east-west, mais larga do que alta. Mudam as proporções, os fechamentos e as ferragens, e com eles muda toda a percepção da peça. A variedade de materiais amplia ainda mais o repertório: camurça, couro macio, superfícies texturizadas, tramas e até estampas gráficas aparecem em versões que vão do clássico ao mais moderno.
Nos dois casos, franzido e trapézio, o convite ao artesão é o mesmo: olhar o próprio acervo e imaginar como a tendência dialoga com as suas técnicas, do trançado ao patchwork, da pintura à mão ao bordado. Mais do que copiar um modelo, vale usar a textura e a geometria como ponto de partida para criar peças autorais, coerentes com o seu contexto e o seu repertório.
Couro natural x sintéticos: o que os estudos mostram Na hora de escolher o material da peça, muitos artesãos se perguntam sobre o impacto ambiental do couro animal em comparação com os sintéticos, como o PU e o PVC. Estudos de Análise de Ciclo de Vida (ACV) ajudam a enxergar os dois lados, e a leitura mais honesta é que não existe um material perfeito. Cada um reúne vantagens e desvantagens. A ideia aqui não é dizer qual é o melhor, e sim reunir informação para que você tire suas próprias conclusões. Produção e pegada de carbono. Na fase de fabricação, o couro natural costuma apresentar pegada de carbono mais alta, ligada à pecuária e ao curtimento, que consome água e produtos químicos, entre eles o cromo no curtimento tradicional. Há quem lembre que o couro é, em boa parte, um subproduto da indústria da carne. O sintético parte de uma pegada inicial menor nesse quesito, mas depende de combustíveis fósseis, já que deriva do petróleo. Durabilidade. O couro natural é reconhecido pela resistência e pela longevidade: bem cuidado, pode durar décadas. Os sintéticos costumam ter vida útil mais curta e tendem a ressecar, rachar ou descascar com o uso, o que leva a trocas mais frequentes. As estimativas variam bastante de uma fonte para outra, o que reforça que a qualidade do material e o cuidado com a peça pesam tanto quanto a escolha em si. Descarte e fim de vida. Aqui entra um ponto que merece atenção. O couro é de origem orgânica, mas sua biodegradabilidade depende muito do tipo de curtimento. O couro de curtimento vegetal tende a se decompor melhor, enquanto o couro curtido ao cromo, o mais comum no mercado, é tratado justamente para resistir à degradação. Mesmo no caso do couro, o tempo estimado de decomposição não é curto: as fontes falam em anos, e não em meses. Já os sintéticos não são biodegradáveis, podem permanecer muito tempo no ambiente e liberam microplásticos ao se desgastarem. Novas alternativas: os biomateriais. Buscando um caminho entre o impacto da pecuária e o plástico dos sintéticos, a indústria vem desenvolvendo biomateriais de nova geração, feitos a partir de cogumelo (micélio), cacto, folhas de abacaxi e maçã, entre outros. Muitos ainda usam porcentagens de ligantes sintéticos na composição, mas costumam reduzir a pegada em relação ao plástico puro. É um campo novo, em evolução, que vale acompanhar com olhar crítico, observando certificações e a composição real de cada material. Não há uma resposta única. Se o que pesa para você é durabilidade e um descarte mais orgânico, o couro natural, sobretudo o de curtimento vegetal, tem seus argumentos. Se o que pesa é menor impacto imediato de produção ou a questão animal, os sintéticos e os biomateriais entram na conversa, sem esquecer o desafio do lixo plástico. Um ponto costuma aparecer nos estudos, seja qual for o material: a durabilidade e o uso consciente, ou seja, produzir e consumir com intenção, cuidar bem do que já existe e valorizar o que dura. Para o artesão, essas informações não são regra, e sim referência. Elas servem de inspiração para pensar a própria criação: que material conversa com a sua proposta, com a sua história e com o público que você atende. A escolha mais rica costuma ser aquela que nasce do seu repertório e da sua assinatura, transformando a peça em algo autoral, com significado e verdade. |




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