Das mãos ao mar: Chanel e a arte que não envelhece
- CanalCraft

- 29 de abr.
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No Cruise 2027, Matthieu Blazy transforma Biarritz em passarela e lembra ao mundo que, em Chanel, cada ponto tem história — e cada peça, uma razão para existir.
Há marcas que vendem roupas. Há marcas que constroem mundos. E há a Chanel — que faz as duas coisas com uma precisão que desafia o tempo. No dia 28 de abril, em Biarritz, na costa basca francesa, a maison apresentou sua coleção Cruise 2027, com a estreia de Matthieu Blazy à frente dessa linha tão especial. O cenário não foi escolhido por acaso: foi em Biarritz que Gabrielle Chanel deu passos decisivos para libertar o corpo feminino da rigidez da moda do início do século XX, abrindo uma boutique e vestindo mulheres que queriam viver — e não apenas ser vistas. Mais de cem anos depois, a maison volta ao mesmo endereço. E a mensagem segue a mesma: elegância é liberdade.
É impossível falar de Chanel sem falar de contradição. Gabrielle Chanel foi uma figura de passado nebuloso — suas colaborações durante a Segunda Guerra Mundial permanecem como sombra em sua biografia. Mas o que ela construiu para a mulher e para a moda é inegável, insubstituível, essencial. Sem ela, não estaríamos onde estamos. O tailleur, o vestido preto, o tweed liberado do uniforme masculino, a ideia de que uma mulher pode ser sofisticada sem se aprisionar: tudo isso passou pelo ateliê de Gabrielle. Seu legado não pede admiração cega — pede leitura crítica. E é exatamente por isso que ele segue vivo, debatido, relevante.
Em Chanel, o artesanato não é detalhe — é o argumento.
Artesanal
Para entender o que chegou ao Le Casino Municipal de Biarritz, é preciso voltar a Paris — mais especificamente, a um endereço que a maioria das pessoas nunca viu, mas cujo trabalho todos já sentiram. É lá que fica o 19M, polo criativo fundado pela maison em 2021, que reúne sob o mesmo teto os 11 ateliês responsáveis pelo que a Chanel chama de métiers d'art: os ofícios de arte. Chapeleiros da Maison Michel, joalheiros da Goossens, bordadeiras da Lesage, plumassiers da Lemarié, sapateiros da Massaro — cada um deles um guardião de uma técnica que o mundo corre o risco de esquecer.
No Cruise 2027, o artesanato não ficou nos bastidores — ele subiu à passarela. Os icônicos tweeds da maison, ainda tecidos em tear manual, ganharam leveza marinha. As texturas dialogaram com o mar e com as criaturas do fundo d'água: listras, escamas, padrões que lembram algas e corais. O convite para o desfile — um delicado colar de prata com cauda de sereia — foi ele próprio uma peça artesanal, um objeto que entregava a poética da coleção antes mesmo que o primeiro modelo cruzasse a passarela. Em Chanel, o artesanato não é detalhe. É o argumento.
Matthieu Blazy foi preciso na construção dessa narrativa. A proposta era vestir uma mulher que transita entre o mar e o salão de baile — funcional e sofisticada ao mesmo tempo. Para isso, a beleza também foi convocada: cabelos com aparência molhada, pele com viço natural, cílios plumados que completavam o universo das sereias sem cair no literal. A trilha sonora, assinada por Michel Gaubert, trouxe uma surpresa brasileira — “Aquarela do Brasil” soou pelos corredores do casino basco, unindo mundos que, à primeira vista, não se encontrariam.
Atemporal
Uma das escolhas mais comentadas do desfile foi o casting. Mulheres entre 40 e 60 anos dividiram a passarela com modelos mais jovens — e não como exceção, mas como protagonistas. Stephanie Cavalli, 50 anos, que já havia aberto os últimos desfiles de prêt-à-porter e de alta-costura da maison, voltou a cruzar a passarela. Ao lado dela, nomes como Christina Chung, Laura Ponte e Viktorija Bauzyte, rostos frequentes no universo de Blazy. Em um mercado historicamente obcecado pela juventude, essa escolha é um gesto político — e estético. O estilista vem repetindo, em entrevistas, sua vontade de celebrar a individualidade de cada mulher. O casting é o discurso em forma de roupa.
Para o artesão que acompanha a moda como fonte de referência e atualização, Chanel é leitura obrigatória — não pela inacessibilidade do preço, mas pela riqueza do repertório. O que chega às passarelas da maison é um mapa de tendências de desejo: o que as pessoas vão querer sentir, tocar, ter. As referências ao universo marinho do Cruise 2027 — listras, texturas orgânicas, cromatismo costeiro — são sinais que o mercado vai absorver em diferentes escalas e segmentos.
Quem entende essa lógica não segue a tendência: antecipa.
Chanel não é só uma marca. É uma linguagem. E quem aprende a ler essa linguagem — seja para criar, para vender ou para inspirar — passa a jogar o jogo da moda artesanal com muito mais inteligência.






























































Adorei a matéria ,