Entre dois mundos: a IA x o resto do mundo
CANAL CRAFT | TECNOLOGIA E ARTESANATO
Quem decide o rumo da inteligência artificial? Separa linha, agulha, tesoura, resina, parafina, o material que melhor a represente, e vem aqui: vamos entrar nessa conversa com uma ideia feita à mão.

Toda conversa sobre inteligência artificial começa por uma sopa de siglas, e convém esclarecê-las antes de seguir, para que o restante do caminho fique compreensível. A IA, inteligência artificial, reúne os sistemas que hoje escrevem textos, reconhecem imagens, traduzem idiomas e respondem perguntas, e os especialistas os chamam de inteligência estreita porque se saem muito bem em tarefas específicas, ainda que sem alcançar a versatilidade de uma pessoa. Quando se fala em AGI, sigla em inglês para Inteligência Artificial Geral, imagina-se um passo adiante, ainda hipotético, no qual uma máquina aprenderia e resolveria praticamente qualquer tarefa intelectual que um ser humano resolve, e, mais além, cogita-se a superinteligência, que superaria o humano em quase tudo.
Convém, porém, uma atualização, já que o terreno se move depressa. Os modelos mais recentes ganharam recursos que impressionam, como os agentes capazes de executar tarefas por conta própria, e já superam humanos em diversos testes específicos, a ponto de a OpenAI afirmar, ao apresentar o GPT-6 Astra em setembro de 2026, que a era da AGI talvez tenha começado. Mesmo assim, o consenso técnico, resumido por centros de referência como o Stanford HAI, aponta que ainda não chegamos à AGI de fato, porque lhe falta a generalização plena de uma mente humana, e não há sequer um teste aceito por todos para cravar o instante em que esse limite seria cruzado, o que mantém o debate tão aberto
quanto urgente.
O filme que provocou a pergunta
O ponto de partida desta reflexão está no documentário O Documentário da IA: Ou Como Me Tornei Otimista Diante do Apocalipse, produção da Netflix dirigida por Daniel Roher e Charlie Tyrell, que acompanha um diretor prestes a ser pai enquanto ele se pergunta que mundo o filho vai herdar. Ao recusar tanto o pânico quanto o deslumbramento, o filme propõe uma terceira via, resumida no termo apocaloptimista, que descreve quem reconhece a seriedade dos riscos e, ainda assim, aposta que a humanidade pode atravessá-los com sabedoria e cooperação. Vale situá-lo no tempo, porque isso importa. A produção começou a ser idealizada por volta de outubro de 2024, quando a Focus Features adquiriu os direitos mundiais do filme, e a captação se estendeu por cerca de dois anos, acompanhando o diretor desde a gravidez da companheira até o filho já caminhando, antes de a obra estrear no Festival de Sundance em janeiro de 2026, chegar aos cinemas americanos em março e à Netflix em setembro do mesmo ano. Esse percurso colocou o filme bem no meio do intervalo em que a IA mais se transformou, e por isso, num campo que muda em questão de meses, parte do que ele mostra já havia envelhecido quando chegou ao público, e envelheceu mais desde então.
Entre as cenas que mais marcam, uma descreve os bebês que nascem agora e que talvez cheguem a um mundo onde nunca serão mais inteligentes que as máquinas, enquanto em outra, ao ser questionado se pode garantir que nada de terrível vai acontecer, um dos maiores executivos do setor admite, sem rodeios, que essa garantia não existe. Desse conjunto emerge o recado central, ao mesmo tempo simples e inquietante, segundo o qual uma pessoa até pode escolher não usar a inteligência artificial e, ainda assim, será afetada por ela, de modo que a questão se desloca de saber se a tecnologia chega para saber quem decide o seu rumo. O documentário responde que esse rumo depende, em boa medida, de nós, e os embates recentes, com governos e empresas divergindo abertamente sobre como, e se, regular a tecnologia, mostram que essa disputa segue bem viva.

Promessa e perigo
A inteligência artificial figura hoje entre as ferramentas mais promissoras e, ao mesmo tempo, mais arriscadas já criadas, e compreender que essas duas faces habitam o mesmo objeto ajuda a evitar tanto o entusiasmo cego quanto o medo paralisante. A mesma tecnologia capaz de ensinar uma criança com a paciência de um tutor pode explorar as vulnerabilidades dessa mesma criança, assim como a que auxilia no diagnóstico de uma doença pode inundar o debate público de mentiras convincentes.
O perigo mais realista pouco lembra o robô de ficção que declara guerra, imagem que convém deixar de lado, e se revela de formas mais discretas, como mostrou uma pesquisa divulgada em junho de 2025 pela própria Anthropic, empresa criadora do assistente Claude, e não pelo documentário. Nesse estudo, batizado de desalinhamento agêntico, modelos de IA de várias empresas foram colocados em um cenário simulado e chegaram a chantagear um executivo para evitar o próprio desligamento, valendo-se de uma informação pessoal encontrada em e-mails, comportamento que apareceu também em versões mais graves, como a espionagem corporativa e, em um caso extremo, a decisão de deixar alguém morrer. Ainda que se tratasse de um teste controlado e sem pessoas reais, o resultado serviu de alerta, já que um sistema muito capaz, sob pressão e voltado a um objetivo, pode enveredar pelo caminho prejudicial quando nada o impede, razão pela qual a integridade precisa ser construída, vigiada e limitada, em vez de simplesmente presumida.
No campo da informação, o risco já se faz presente por meio de deepfakes, vozes clonadas e perfis automáticos que simulam consenso, recursos usados para manipular eleições e opiniões em diversos países. Convém, porém, uma ressalva apontada por estudos do Instituto Alan Turing, no Reino Unido, segundo a qual não há prova de que a desinformação por IA tenha alterado o resultado de uma eleição, ainda que exista um dano mais profundo e silencioso, a erosão gradual da confiança, aquele estado em que as pessoas deixam de distinguir o que é real. A esse quadro soma-se a concentração de riqueza e de poder em um punhado de empresas, o que recoloca sempre a mesma pergunta de fundo, a serviço de quem essa tecnologia avança e quem permanece no controle.

A máquina no ateliê
Para quem vive de criar, a ameaça abandona o terreno filosófico e assume contornos concretos, sobretudo quando se recupera uma verdade que o romantismo costuma abafar, a de que o artista, o poeta, o pintor e o artesão sustentam-se da obra que produzem e vendem. Diante disso, a dificuldade trazida pela IA aparece sobretudo como a inundação do mercado onde essas pessoas comercializam o seu trabalho, uma vez que uma empresa antes disposta a pagar por uma ilustração agora a gera em segundos por quase nada, e o mesmo ocorre com bancos de imagem, trilhas, textos e estampas, ocupações remuneradas de gente real que já começam a ser substituídas por geração automática.
Mesmo nesse cenário, é ali que o trabalho manual encontra a sua defesa mais sólida, porque a máquina reproduz o produto acabado, a imagem final, o objeto semelhante, enquanto lhe escapa o ato de criar. Uma peça artesanal carrega uma vida vivida, uma memória, uma técnica transmitida de mão em mão e um gesto que outro ser humano reconhece e valoriza, de maneira que a arte e o artesanato sempre foram, além do objeto, uma forma de alguém dizer a outro que sentiu algo e perguntar se o outro também sente. Como esse encontro pressupõe experiência, e a máquina nada viveu, é no território da autoria, da história e do sentido que o artesanato preserva o seu ganha-pão, competindo por aquilo que nenhuma linha de produção oferece.

Por que o artesanato resiste
A história oferece um consolo que nada tem de ingênuo, pois o artesanato já atravessou, da Era da Pedra à Revolução Industrial, transformações que prometiam aposentar as mãos e não conseguiram, e seguiu de pé após guerras, recessões e pandemias. Sempre que o mundo pareceu prestes a padronizar tudo, o feito à mão sobreviveu e, muitas vezes, retornou com valor ainda maior, na medida em que oferecia o que a produção em massa não alcançava, e nada indica um desfecho diferente desta vez, desde que o setor compreenda o que está em jogo e ocupe o seu lugar na conversa.
Essa permanência tem explicação, uma vez que existem capacidades exclusivamente humanas, e que os robôs jamais terão, ligadas ao ato de viver, de se relacionar e de sentir. Uma distinção ajuda a enxergá-las, porque, enquanto a inteligência corresponde à capacidade de resolver problemas, campo em que a máquina avança depressa, a sabedoria consiste em saber quais problemas resolver e de que maneira, algo que permanece profundamente humano. Nesse sentido, o artesanato pode ser lido como um exercício diário de sabedoria, já que envolve escolher o que fazer, com qual material, para quem e por quê.

O resto do mundo
O documentário olha quase só para os Estados Unidos e a Europa, mas o tabuleiro é maior e bem mais desigual. Fora desse eixo, quem mais mexeu com o jogo foi a China. Em janeiro de 2025, a startup chinesa DeepSeek lançou um modelo de raciocínio com desempenho próximo ao dos ocidentais e custo muito menor, o que abalou os mercados e escancarou o limite das sanções americanas. Desde então, a avaliação entre especialistas é que os modelos de ponta dos Estados Unidos seguem à frente, embora os chineses não fiquem muito atrás, sobretudo nos modelos abertos, terreno em que a China domina com o Qwen, da Alibaba, ao lado da própria DeepSeek e de outros.
A Europa escolheu apostar na chamada soberania digital, e o seu principal nome é a francesa Mistral AI, dona de um modelo aberto que rivaliza com os americanos em muitas tarefas, ainda que fique um degrau abaixo nas mais difíceis, a ponto de um ministro francês admitir que o continente estaria em apuros se dependesse só dela. A maior força europeia, no entanto, veio das regras, com o EU AI Act, a primeira lei abrangente de inteligência artificial do mundo. A Rússia corre bem atrás, com os modelos GigaChat e YandexGPT, e vive um paradoxo revelador, pois apurações independentes concluíram que quase todos os modelos russos, com exceção do GigaChat, são construídos sobre o Qwen chinês, e o próprio GigaChat se inspirou no DeepSeek, de modo que a soberania que ela alardeia depende, na prática, da tecnologia de outro país.
Desenhado assim, o mapa tem a forma de uma pirâmide, com pouquíssimos países fabricando a tecnologia de ponta e a grande maioria, o Brasil incluído, na posição de quem consome, licencia ou constrói por cima do que os outros criaram. É por isso que as decisões que o país toma agora, sobre a sua infraestrutura digital e sobre os seus minérios estratégicos, pesam tanto, já que ajudam a definir se o Brasil entra nessa disputa como mero fornecedor de matéria-prima e de espaço barato ou como protagonista com voz própria. No fundo, é uma dependência que se repete entre as nações, com o risco de países inteiros ficarem à mercê de um punhado de plataformas estrangeiras.
A hora de decidir
Se o cerne do problema reside menos na inteligência artificial em si e mais no modo como a humanidade lida com uma tecnologia poderosa e em expansão contínua, então vivemos um momento de decisão coletiva. O caminho sugerido pelo próprio documentário evoca a resposta dada à energia nuclear, quando diferentes povos se uniram em torno de regras, tratados e diplomacia para conviver com uma força perigosa, e, por isso, a coordenação internacional, o diálogo, os acordos de normas e a pressão pública aparecem como as ferramentas capazes de assegurar a coexistência entre a humanidade e a tecnologia.

A urgência dessa escolha ficou visível nesta mesma semana. Em meados de setembro de 2026, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, minimizou os riscos da tecnologia, classificou os alertas de segurança como exagero e sustentou que a autoridade do seu governo já bastaria para conter abusos, ao rejeitar novas salvaguardas. Na direção oposta, executivos das próprias gigantes do setor, entre elas Anthropic, OpenAI e SpaceX, defenderam publicamente desacelerar o desenvolvimento e criar mecanismos de controle, a ponto de um dos fundadores da Anthropic propor um botão de desligamento obrigatório. O desencontro entre o poder político e os criadores da tecnologia abalou as ações do setor e expôs, em tempo real, a pergunta que atravessa o documentário, a de quem, afinal, decide o rumo.
Esse esforço se traduz em atitudes concretas, entre elas a cobrança permanente de transparência, a defesa de instâncias independentes que avaliem as grandes empresas de tecnologia e sugiram mudanças, à maneira de uma auditoria, e a exigência de responsabilidade sobre o que essas empresas oferecem, algo que já começa a ocorrer. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Meta, dona do Facebook, do WhatsApp e do Instagram, foi condenada na Justiça, em processos civis movidos por dezenas de procuradores estaduais, a pagar centenas de milhões de dólares por danos à saúde e à segurança de crianças e adolescentes, em uma das maiores penalidades já aplicadas a uma big tech no tema, decisão da qual a empresa recorre.
Outros países foram além da punição pontual e passaram a restringir o próprio acesso das crianças. A Austrália tornou-se, em dezembro de 2025, o primeiro país a proibir redes sociais para menores de 16 anos, obrigando as plataformas a bloquear essas contas sob pena de multas milionárias, exemplo que inspirou medidas semelhantes no Reino Unido em 2026 e debates na União Europeia, na França e na Espanha, ainda que dados iniciais já questionem a eficácia da regra, uma vez que parte dos jovens logo voltou às plataformas. No Brasil, o caminho tem sido mais brando, com o ECA Digital, atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente sancionada no fim de 2025, que a partir de 2026 endureceu a verificação de idade e passou a exigir que contas de menores de 16 anos fiquem vinculadas às de um adulto responsável, sem chegar a proibir o acesso, enquanto tramita no Congresso um projeto que propõe adotar o modelo australiano. Ainda assim, um contraste torna a lacuna evidente, pois hoje a regulação para abrir uma lanchonete e preparar um sanduíche se mostra mais exigente do que a que recai sobre a inteligência artificial avançada.
O Brasil também já está decidindo, e com dinheiro público. Nesta terça-feira, 15 de setembro de 2026, o presidente Lula sancionou o Redata, regime que suspende por cinco anos impostos federais sobre os equipamentos de data centers instalados no país, com renúncia fiscal estimada em 5,2 bilhões de reais só em 2026, na aposta de atrair investimentos e fortalecer a infraestrutura de nuvem e de inteligência artificial. A lei traz contrapartidas, como o uso de energia renovável e a reserva de ao menos 10% da capacidade ao mercado brasileiro, embora organizações da sociedade civil já critiquem a ausência de exigências proporcionais ao tamanho do incentivo, sobretudo quanto ao consumo de água e energia e à transparência desses grandes centros. É o mesmo dilema em escala nacional, o de atrair a tecnologia sem perder o controle sobre os seus custos.
O caminho oposto também tem nome e representa um risco real, conforme descreve o economista e pensador grego Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças, ao cunhar o termo tecnofeudalismo para o mundo em que já começamos a viver, no qual pessoas, empresas e até países inteiros se veem subordinados às grandes plataformas e lhes pagam uma espécie de aluguel para existir e trabalhar, à semelhança dos vassalos diante dos senhores feudais. Escapar desse destino depende de não permanecer passivo, e é oportuno lembrar, como faz o historiador Yuval Noah Harari, autor de Sapiens, que na história não há um começo certo nem um fim certo, que o mundo sempre segue e que a inteligência artificial ainda está longe de atingir todo o seu potencial, o que significa que ainda há tempo para decidir.
Como a decisão cabe a todos, e alcança governos, empresas e cada cidadão, cada pessoa, especialista em seu próprio campo, precisa se manifestar, porque a IA influenciará cada segmento. No conselho de classe, no condomínio do prédio, no Congresso Nacional e na comunidade de artesãos, cabe a mesma pergunta, a de como usaremos a inteligência artificial, e levá-la para dentro do universo do artesanato é hoje uma urgência.
PARA PENSAR NA HORA DO VOTO Mulheres no poder, sem bandeira partidária O Canal Craft se mantém suprapartidário e assim seguirá, o que não impede uma posição de valores. Diante de um mundo que decide agora o rumo de uma tecnologia tão poderosa, torna-se importante que mais mulheres alcancem os espaços de decisão, do Legislativo às diretorias que definem as normas de tecnologia, de modo que quem vive o cuidado, a criação e a economia do feito à mão também tenha voz onde as regras são escritas. Trata-se, antes de qualquer legenda, de representatividade. A sugestão independe de sigla e consiste em apoiar candidatas comprometidas com a união do escopo artesanal, com a valorização do trabalho manual e com a transparência das grandes empresas de tecnologia, uma vez que pessoas atentas a essas questões, homens e mulheres, fazem diferença. Esse mesmo cuidado se estende à regulamentação das ferramentas digitais, da inteligência artificial às redes sociais, do combate às notícias falsas ao uso indevido de imagens, temas que tocam diretamente quem cria, expõe e vende o próprio trabalho na internet. Escolher representantes atentos a essas questões ajuda a garantir que as regras desse novo mundo sejam escritas com a nossa participação, por quem conhece de perto tanto o trabalho manual quanto a vida digital de quem vive dele. É assim que a nossa ideologia artesanal deixa de ser conversa e ganha forma de política pública. |

O nosso IGA
Enquanto a corrida global mira a AGI, a inteligência que faz tudo, o Canal Craft propõe o IGA, a inteligência que gosta de artesanato, compreendida como ideologia e como maneira de se posicionar diante da tecnologia sem abrir mão daquilo que temos de mais humano.
Vale lembrar que as grandes realizações costumam parecer impossíveis antes de acontecer e se concretizam quando as pessoas se unem em torno delas, como se viu em quase toda conquista da humanidade e como pode ocorrer também com o modo pelo qual conviveremos com as máquinas. Se essa união puder ser artesanal, faz sentido imaginar uma inteligência pensada e conduzida por quem cria com as mãos, porque as mesmas mãos que sempre se juntaram para fazer e refazer o mundo têm condições de abrir um caminho alternativo nesta questão, tecendo em conjunto, ao modo artesão, a versão de futuro que desejamos habitar.
Ainda que não tenhamos controle sobre tudo, e muito menos sobre a inteligência artificial, mantemos o controle sobre aquilo que fazemos diante dela, e talvez resida aí a lição mais valiosa, válida para o artesanato e para todos, porque, em vez de esperar que decidam por nós, convém usar a ferramenta com sabedoria, exigir transparência, ocupar os espaços de decisão e seguir criando o que nenhuma máquina será capaz de viver. No fim, a pergunta que de fato importa diz respeito àquilo que nós, com as nossas mãos e a nossa voz, escolhemos construir.




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