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Inverno 2027: o obi virou cinto, o cachecol virou manto e o tricô vem com tudo...

30 de jun.
5 min de leitura

Compridos, volumosos e amarrados como antigamente, os acessórios da estação revivem técnicas que o artesão brasileiro já domina. Para quem trabalha com as mãos, é a senha para entrar no inverno com peça pronta para vender.

Benavente - divulgação
Benavente - divulgação

Há séculos, o obi é a peça que dá estrutura ao quimono. Uma faixa larga, amarrada na cintura, que no Japão feudal cumpria função prática — segurar a roupa — e também comunicava status, idade e ocasião através da cor e do nó. Com o tempo, virou trabalho de artesão: tecida em seda, bordada à mão, cada nó carregando um significado.

Esse mesmo princípio — faixa larga, amarrada, que estrutura o corpo — é o que volta com força no Inverno 2027 sob o nome de corset belt. A moda internacional já trata os dois como parentes diretos: marcas e analistas de tendência descrevem o corset belt também como "obi belt", a larga faixa de tecido inspirada no vestuário japonês que hoje aparece sobre alfaiataria e sobretudos. Não é uma peça nova. É uma peça resgatada, com leitura contemporânea.


Esse é o fio que conecta os três movimentos de acessórios da temporada: o cachecol que cresce até virar manto, o cinto que estrutura como um obi, o colete que devolve protagonismo ao tricô. Em comum, todos têm um pé na tradição manual e outro na proporção exagerada que marca o Inverno 27. E é justamente aí que mora a oportunidade para quem trabalha com as mãos no Brasil: transformar leitura de tendência internacional em peça com identidade própria, técnica nacional e preço justo.


Acessórios: Maxi cachecol

O Inverno 2027 destaca os cachecóis longos e volumosos como um dos principais acessórios da temporada. Com comprimentos que muitas vezes ultrapassam a linha do quadril e podem chegar próximos ao chão, eles deixam de ser apenas um complemento para assumir protagonismo no look. A proposta aparece em versões enroladas ao redor do pescoço, jogadas sobre os ombros ou usadas como wraps, trazendo uma sensação de proteção e conforto que conversa diretamente com o desejo por peças mais acolhedoras.

Os modelos surgem em tricôs encorpados, em pelo, em nylon acolchoado e até em versões mais estruturadas em couro. Além dos comprimentos exagerados, o volume é outro elemento importante, criando silhuetas envolventes e acrescentando impacto visual às produções. Seja combinados com alfaiataria, casacos ou malhas, esses cachecóis funcionam como um ponto importante no styling, trazendo textura, movimento e uma camada de visual ainda mais interessante.



Para o artesão brasileiro

O maxi cachecol é a peça mais simples de adaptar para a realidade do país, mesmo em regiões de inverno ameno. A saída é trabalhar a sensação de volume sem o peso de uma lã pesada: fios de algodão grosso, blends de algodão com acrílico ou alpaca, e pontos vazados em tricô ou crochê (ponto fantasia, ponto arroz, pontos altos abertos) dão corpo e caimento sem esquentar demais. Agulhas grossas e fios duplos aceleram a produção e ajudam a precificar a peça pelo volume de fio, não só pelas horas de trabalho. Franjas longas, nós e acabamentos em macramê reforçam a leitura artesanal e diferenciam a peça de versões industriais.



Alfaiataria: Cinto Corset

O corset belt aparece no Inverno 27 como um recurso de styling capaz de transformar a alfaiataria tradicional, ao adicionar definição à silhueta e uma nova leitura a peças clássicas. Aplicado sobre casacos, sobretudos, blazers e conjuntos de alfaiataria, o acessório pode criar um efeito de cintura marcada e aproximar o guarda-roupa formal de uma estética mais contemporânea. O movimento evidencia uma busca por atualizar bases clássicas sem perder sua elegância, utilizando o corset belt como ferramenta para criar contraste entre rigidez e feminilidade.


Presente em propostas de marcas como Dolce & Gabbana, Polo Ralph Lauren e Valentino, o corset belt aparece em diferentes interpretações, transitando entre modelos mais discretos e construções de maior impacto visual. Criando proporções mais marcadas e valorizando a estrutura da alfaiataria, as versões variam entre cinturas mais finas e delicadas e faixas mais largas, com destaque para detalhes como abotoamentos, plissados, amarrações, nós e trançados. Esses elementos reforçam o aspecto artesanal e sofisticado da peça, trazendo textura e elaboração mesmo em produções mais minimalistas.


Para o artesão brasileiro

Esta é a peça do gancho de resgate, e por isso a com maior potencial de diferenciação. O artesão pode citar o obi diretamente: faixas largas em tear manual, macramê ou crochê estruturado, com fios mais firmes (sisal, juta, linho ou algodão encerado) que sustentam a forma sem precisar de entretela. Nós, tranças e amarrações — técnicas que já existem na rede de dormir, na renda renascença e no macramê regional — substituem o fecho industrial e viram o diferencial da peça. Couro vegetal ou de curtumes locais também atende quem trabalha em ateliê. Marcas brasileiras como Vanessa Montoro e Adriana Barra já mostram que essa costura entre técnica manual e alfaiataria tem mercado e aceita preço de peça autoral, não de acessório de bazar.

Tricô: Coletes

O colete de tricô deixou de ser uma peça meramente funcional de inverno para se tornar um item essencial de sobreposição, com altíssimo valor comercial e apelo à moda jovem e contemporânea. A versatilidade comercial deste produto está na coexistência de duas silhuetas principais: a primeira inteira, no estilo regata, com linhas retas e decotes que variam entre redondo e V; e a segunda, com abertura por botões, fazendo alusão as cardigãs e até mesmo à alfaiataria.



Fios com aspecto mohair ou alpaca escovada são o grande destaque comercial da temporada. Eles proporcionam leveza visual e isolamento térmico, permitindo modelagens de caimento mais suaves. O ponto meia clássico, com fios de espessura média a grossa, apresenta uma estrutura robusta, essencial para modelos abotoados. O uso de fios mouliné ou de efeitos mesclados bicolores cria uma textura rica sem a necessidade de jacquards complexos, otimizando o tempo de máquina na produção.

Destaque para o crochê em estilo granny square (quadrados da vovó) visto na passarela de Stella McCartney, que confirma a força da tendência artesanal. Para marcas comerciais, esse efeito multicolorido e geométrico pode ser traduzido em jacquards eletrônicos ou mantido em crochê manual para coleções cápsula de maior valor agregado.


Para o artesão brasileiro

O colete é, hoje, a peça mais fácil de vender para quem produz artesanalmente no Brasil — é leve, veste o ano inteiro em boa parte do país e usa pouco fio em relação a um casaco. O granny square é território conhecido: o ponto já existe na tradição do crochê brasileiro, e sua leitura de passarela é, na prática, uma validação do que muitas artesãs já fazem. A diferença está em curar a paleta de cores (evitar o excesso multicolor genérico e trabalhar duas ou três cores autorais), padronizar o tamanho dos quadrados e caprichar no acabamento das costuras. Para quem trabalha em tricô, vale trocar a lã pura por mohair nacional ou blends com alpaca, que dão o efeito peludo e leve sem o custo da fibra importada.


O artesanato movimenta até R$ 100 bilhões por ano no Brasil, soma 8,5 milhões de pessoas no setor e cresceu 26% na última década — segundo o Sebrae. Invista e prepare-se para vender

O artesanato no Brasil já não é nicho: movimenta entre R$ 50 bilhões e R$ 100 bilhões por ano, equivale a quase 3% do PIB e ocupa mais de 8,5 milhões de pessoas, segundo levantamentos do Sebrae. O setor cresceu 26% na última década, e as vendas por canais digitais saltaram 80% só no primeiro trimestre de 2025. Marcas brasileiras como Catarina Mina, Vanessa Montoro e Adriana Barra mostram que técnica manual com identidade autoral compete de igual para igual com moda industrial — inclusive no mercado internacional de luxo.

As três peças desta matéria têm o mesmo ponto de partida: uma tendência internacional com raiz manual, fácil de traduzir para fio, ponto e mão de obra nacional. O caminho é claro. Definir paleta e identidade antes de produzir em volume. Testar peça-piloto com cliente real antes da coleção cápsula. Precificar pela técnica e pela autoria, não só pelo fio gasto. Quem se preparar agora — com estoque de fio, amostras prontas e portfólio fotografado — entra no inverno com produto pronto para vender, em vez de correndo atrás da demanda.

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