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Trama tropical

há 4 horas
7 min de leitura

Cores do mar, franjas que balançam e pontos vazados que deixam o corpo respirar: o tricô e o crochê chegam às próximas estações com a cara do verão brasileiro.



Um relatório de tendências que analisou passarelas e feiras de produto pronto aponta o tricô e o crochê como protagonistas do vestuário feminino nas próximas estações. As propostas pedem peças leves, com textura, cor e acabamento feito à mão, e é justamente aí que o artesão brasileiro tem muito a oferecer, porque poucos lugares conhecem tão bem o crochê de algodão, a renda, o bordado e o calor que faz a roupa precisar respirar.


A seguir, reunimos as principais apostas e mostramos como cada uma pode ganhar um sotaque tropical, seja nas mãos de quem trabalha com agulha, seja no ateliê de quem produz em pequena escala.




Cores

A cartela aposta no encontro entre neutros atemporais e tons frios bem intensos, com uma atmosfera marítima que combina com o nosso litoral. O tom areia funciona como base clara e versátil, fácil de usar em qualquer peça, e o rosa queimado suave traz um toque romântico e delicado aos pontos trabalhados.


A força da paleta está nos azuis, que vão do turquesa vibrante ao marinho profundo, e no verde esmeralda fechado. Juntos, eles criam contrastes elegantes e padronagens marcantes, como listras, blocos de cor e jacquards. Para o artesão, uma boa estratégia é usar a areia como fundo e reservar os azuis e o esmeralda para barras, golas, bordados e franjas, o que valoriza a peça sem pesar no custo do fio.




Elementos de estilo


Bordados florais

Os bordados florais aparecem como o grande ornamento da estação, trazendo textura ao toque e um apelo artesanal evidente. As referências usam ponto corrente, relevos com pedrarias e lantejoulas e contornos gráficos, sempre com flores grandes sobre fundos neutros ou coloridos, como mostram Wales Bonner, Hellessy e Stine Goya. O Brasil tem tradição de sobra nesse campo, com polos de bordado espalhados pelo país, e a flora tropical oferece motivos que nenhuma passarela internacional tem, do hibisco à flor do maracujá.


Franjas

As franjas surgem nas barras de túnicas, saias, vestidos e conjuntos inteiros de tricô e crochê, e aparecem em fios de viscose brilhante, algodão macio ou mesclas metalizadas, que dão movimento sem deixar a roupa pesada. Alemais, Anna Sui e Gabriela Hearst são referências. Por aqui, a inspiração pode vir das varandas das redes de dormir e do macramê, técnicas que muitos artesãos já dominam e que ganham nova vida quando aplicadas à roupa.


Amarrações

As amarrações entram como recurso de modelagem prático e bonito, simulando mangas ou lenços presos à peça e desenhando a silhueta em vestidos, tops frente única e cardigãs. Faixas feitas na própria trama viram nós na cintura, laços no pescoço em estilo foulard ou drapeados que dão volume e ajuste, como nas propostas de Diesel, DSquared2 e FRNCH. Para quem produz sob encomenda, a amarração é uma aliada, porque permite que a mesma peça se ajuste a corpos diferentes.


Peças-chave

O relatório separa as peças em dois grupos. As chamadas tendências comerciais estão em forte crescimento e justificam produção maior, enquanto as tendências remanescentes continuam relevantes e pedem apenas atualizações pontuais em modelos que já vendem bem. Essa leitura ajuda o artesão a decidir onde investir fio e tempo.


Regata

A regata de tricô ganha apelo sensorial, indo de texturas volumosas em fio bouclé e acabamentos com franjas a malhas finas de caimento leve. Golas alongadas em estilo lenço e amarrações laterais agregam valor, e listras coloridas em jacquard convivem com propostas lisas e monocromáticas. É uma tendência remanescente, indicada para mulheres jovens e maduras, para a moda minimalista, o slow fashion e a moda resort, e rende bem em crochê de algodão, perfeito para o calor. Referências: Aware by Vero Moda, FWSS e Helmstedt.


Blusa ajustada de botão

Justa ao corpo, com decote em V profundo ou abotoamento henley, a blusa de botão une sensualidade discreta e uso no dia a dia. Pontos vazados, canelados finos e fios de algodão e viscose garantem ventilação, caimento macio e toque suave, e o acabamento traz peitilho com botões delicados e mangas longas levemente ajustadas, que permitem usar a peça fechada ou aberta sobre outra roupa. É tendência comercial, com forte crescimento. Botões de casca de coco, sementes ou madrepérola reaproveitada dão um toque brasileiro ao modelo. Referências: Eckhaus Latta, JW Anderson e MOSJ Atelier.


T-shirt

A camiseta de tricô deixa de ser básica graças a texturas refinadas, caimento estruturado e acabamento de alfaiataria. Os modelos vão do ajustado com decote V profundo ao levemente amplo com gola careca, em ponto meia liso ou canelado sutil, e usam mesclas de algodão mercerizado, linho e viscose, com punhos e barras encorpados e mangas raglan ou levemente bufantes. É tendência remanescente, voltada à moda atemporal e ao casual elegante. No trabalho manual, pede agulha fina, fio fino e muita regularidade no ponto. Referências: No.21, System e Rachel Comey.


Colete

O colete brinca com proporções, apostando em formas amplas e sem mangas, de caimento solto. As superfícies são bem texturizadas, com fios fantasia como fita, bouclé e efeito pluma, blocos de cor, patchwork de tramas e barras com franjas ou viés esportivo, além de decotes em V profundos e cavas amplas para usar sobre camisas, camisetas ou direto na pele. É tendência comercial, voltada ao público jovem e ao streetwear. O patchwork é uma ótima porta para aproveitar sobras de fio de outros trabalhos. Referências: Diesel, Tommy Hilfiger e Kollor.


Polo

A polo de tricô reforça o clima resort com ar retrô, combinando o jeito esportivo antigo com desenhos ricos, como jacquards de paisagem, xadrez com figuras e listras verticais contrastantes, às vezes em superfícies com textura de toalha. Feita em algodão de toque seco, traz gola estruturada em cor contrastante, peitilho sem botão ou com botões escondidos e mangas curtas amplas. É tendência comercial, e as paisagens em jacquard abrem espaço para paisagens brasileiras, como coqueiros, ondas e casarios. Referências: Chanel, Marimekko e FRNCH.


Suéter delicado

O suéter delicado aposta em uma estética romântica e muito feminina para os dias mais amenos, valorizando o trabalho artesanal com flores em intarsia, laços aplicados ao longo da peça e superfícies rendadas em alto relevo. Os fios são finos e nobres, como algodão, seda e poliamida bem leve, com caimento fluido, gola careca e punhos ajustados. É tendência comercial, indicada para moda romântica, moda de ocasião e mercado premium, e conversa diretamente com as rendas e bordados feitos à mão no Brasil. Referências: Erdem, Hellessy e Ulla Johnson.


Cardigã

O cardigã se firma como a terceira peça que não pode faltar, transitando entre o clássico e o romântico, com golas novas e truques de sobreposição. Ganham destaque as tramas abertas de crochê que lembram renda, as tranças finas e os falsos blocos de cor, em algodão, linho e viscose, com golas marinheiro ou polo ampliadas, abotoamento na frente e punhos ajustados. É tendência remanescente, pensada para a moda atemporal e a moda modesta, e é uma peça em que o crochê brasileiro brilha. Referências: Mos Ref, Ralph Lauren e ASTR.


Conjuntos

Os conjuntos combinam casacos ou blusas de manga longa com shorts e saias curtas, sempre com caimento fluido. As superfícies são bem texturizadas, com vazados geométricos, tranças encorpadas, listras contrastantes de jeito artesanal e barras com franjas ou irregulares, em algodão, linho e fita de poliamida, com cordões na cintura e debruns coloridos. É tendência comercial, indicada para moda artesanal e resort, e combina com as feiras de verão e o turismo de praia, que valorizam a peça feita à mão. Referências: Sergio Davila, By Malene Birger e Eckhaus Latta.


Vestido resort

Peça essencial da estação, o vestido resort une clima de praia e elegância de festa, em comprimentos do midi ao longo e formas que acompanham o corpo com suavidade. Pontos vazados elaborados, rendas delicadas, texturas mescladas e desenhos orgânicos em preto e branco aparecem com alças finas, decotes frente única e busto estruturado estilo corpete. Os fios são nobres e leves, como algodão mercerizado, viscose de brilho sutil e poliamida, garantindo movimento e conforto no calor. É tendência comercial e talvez a peça mais próxima do repertório do artesanato brasileiro. Referências: Ulla Johnson e Marie Louise Muller.


Vestido casual

O vestido casual de tricô renova o guarda-roupa com um ar náutico e esportivo retrô, em modelos ajustados de comprimento midi ou longo. Listras horizontais e efeitos mesclados dominam, com gola polo e peitilho, mangas longas ou três-quartos e amarrações na frente que marcam a cintura, em malha fina canelada ou ponto meia de algodão e viscose, com boa elasticidade e conforto. É tendência remanescente, pensada para a moda casual e atemporal. Referências: Tommy Hilfiger e JW Anderson.


Fio com raiz brasileira

A tendência fica mais rica e mais sustentável quando o fio também conta uma história. Algumas ideias para o artesão:

Algodão colorido. A Paraíba cultiva algodão que já nasce em tons de bege, marrom e verde, dispensando tingimento, e ele conversa bem com o tom areia da cartela.

Fio de malha. Feito com sobras da indústria têxtil, é ótimo para coletes, conjuntos e bolsas com textura e ajuda a tirar retalhos do descarte.

Sobras de fio. Pontas de novelos de outros trabalhos rendem listras, patchwork, franjas e bordados, exatamente os recursos que a estação pede.

Fibras naturais. Algodão, linho e viscose respiram melhor no calor e combinam com o espírito resort. Prefira fornecedores que informem a origem do fio.

Peça que dura. Acabamento bem feito, arremates firmes e instruções de lavagem na etiqueta fazem a roupa durar mais, e durar também é uma forma de sustentabilidade.


O verão tem sotaque

As passarelas internacionais pedem justamente aquilo que o Brasil faz há gerações, que é roupa leve, feita à mão, cheia de textura e cor. Com a cartela certa, um olhar atento às peças que mais crescem e fios que respeitam o clima e o planeta, o artesão brasileiro tem nas mãos a chance de transformar a tendência em peças com identidade própria, prontas para o nosso tropical.



Fotos: divulgação

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