Première Vision Paris: tecnologia no centro da feira e o artesanal em alta nas próximas estações
CANAL CRAFT • FEIRAS E MERCADO
A edição de setembro de 2026 do maior salão de materiais para moda da Europa apostou em tecnologia, mas as tendências para o inverno 2027-28 apontam para o gesto, a origem e a história de cada peça. Veja o que aconteceu, o que o evento busca, como se preparar e por que isso interessa ao artesanato brasileiro.
Canal Craft • setembro de 2026

De 1º a 3 de setembro de 2026, o centro de exposições Paris Nord Villepinte, nos arredores de Paris, recebeu mais uma edição da Première Vision Paris, o salão de negócios que reúne quem fornece matéria-prima para a moda: fiações, tecelagens, curtumes, estamparias, fabricantes de aviamentos e, cada vez mais, empresas de tecnologia. Segundo a organização, foram cerca de 900 expositores de diversos países e mais de 100 especialistas convidados para falar em dois palcos, um dedicado a inovação e tecnologia e outro a moda e beleza.
O tema da edição foi inovação e tecnologia, uma escolha que o salão vem mantendo para as edições de setembro desde o ano passado. Mesmo assim, com tanta conversa sobre inteligência artificial, dados e máquinas, a mensagem que mais interessa a quem trabalha com as mãos veio das tendências. O relatório da estação Outono-Inverno 2027-28, preparado pela equipe de moda da própria feira, afirma que a moda deixou de colocar inovação e natureza em lados opostos e passou a tecer as duas juntas. Nesse cenário, o tempo gasto para fazer uma peça aparece como sinal de qualidade.
O que é a Première Vision
A Première Vision Paris é uma feira de venda entre empresas (B2B), aberta a profissionais do setor, que acontece duas vezes por ano. Ela pertence à Divisão de Moda da GL events, grupo francês que soma 18 feiras e eventos em três continentes e oito escritórios internacionais. Na prática, é ali que marcas, estilistas e compradores escolhem os tecidos, couros, estampas e aviamentos das coleções que vão chegar às lojas mais de um ano depois, e é por isso que as tendências apresentadas agora já falam do inverno europeu de 2027-28.
O propósito declarado pela organização é ajudar as empresas a atravessar as mudanças profundas pelas quais o setor está passando, reunindo toda a cadeia da moda, do fio ao produto pronto. Florence Rousson, diretora-geral da Divisão de Moda da GL events, resumiu a proposta da edição desta forma (tradução livre):
“Esta edição ilustra perfeitamente o espírito de inovação que move hoje a moda e as indústrias criativas.”
Florence Rousson, diretora-geral da Divisão de Moda da GL events
O que se viu
As novidades foram organizadas em cinco frentes. A primeira reuniu materiais de nova geração, como alternativas ao couro feitas com restos de alimentos, biomateriais à base de micélio (a rede de fios que forma o corpo dos fungos), fibras de PLA (um plástico de origem vegetal) e alternativas vegetais à pele animal.
A segunda tratou de rastreabilidade e do passaporte digital do produto, uma espécie de documento de identidade que acompanha a peça e informa de onde vem cada matéria-prima, que certificados ela tem e como foi feita.
A terceira frente mostrou a inteligência artificial aplicada à previsão de tendências, ao desenho em 3D e à organização da produção.
A quarta trouxe processos de fabricação com menos impacto, como tingimento que gasta menos água, reciclagem de tecidos e apoio para garantir condições justas de trabalho.
A quinta apresentou tecidos técnicos para esporte, vida ao ar livre e roupa profissional, incluindo membranas sem PFAS, substâncias usadas para repelir água que se acumulam no ambiente e estão na mira de novas regras na Europa.
Entre as palestras, uma chamou atenção pelo título: “Quando a tecnologia molda a silhueta: entre a impressão 3D e o artesanato da matéria”. A moda também se aproximou da beleza.
Em parceria com a Cosmetic Valley, polo francês de empresas de cosméticos, o salão estreou a Vila Cosmética, com laboratórios e fabricantes da área, e a coreana Kolmar Korea criou para o evento uma paleta de maquiagem e um batom inspirados nas cores do inverno 2027-28.
Três caminhos para o inverno 2027-28
O relatório de estação organiza as tendências em três cenários. O primeiro, chamado Matéria do Tempo (Matter of Time), parte de uma constatação sobre o mundo atual: quanto mais a tecnologia domina a perfeição e a velocidade, mais valor ganha aquilo que revela a presença humana. Marcas de uso, pequenas alterações e sinais do tempo passam a ser lidos como expressão de singularidade e de história, algo que a máquina não consegue repetir. O documento diz assim (tradução livre):
“O tempo dedicado ao design e à fabricação surge como um indicador-chave de qualidade. O empenho e o saber-fazer perceptíveis no produto acabado moldam o seu desejo.”
Relatório de estação Outono-Inverno 2027-28, Première Vision
Dentro desse cenário, o relatório fala em devolver a transmissão do saber-fazer ao coração da moda, destaca motivos ancestrais, tecidos cerimoniais e grandes repertórios decorativos, e mostra estampas que fazem a ponte entre o ponto-cruz e a era do pixel. Registra ainda um sinal curioso: surgiram ao mesmo tempo oito iniciativas de selos do tipo “feito por humanos”, como Not By AI e Proudly Human, para certificar que uma obra teve mão e autoria de gente.
O segundo cenário, Matéria da Leveza (Matter of Ease), responde ao cansaço diante de tecnologias cada vez mais complexas e invisíveis, e propõe colocar as pessoas de novo no centro, com peças que simplificam o uso e unem conforto e função. O terceiro, Matéria Selvagem (Wild Matter), celebra a força do mundo vivo e abre espaço para formas de beleza menos padronizadas, mais orgânicas e até estranhas, em recusa ao artificial.
Quando a política entra na feira
A feira também serviu de palco para um debate que o Brasil conhece bem. Um ano depois de assinarem a Declaração de Villepinte contra a moda ultrarrápida (ultra fast fashion), que é o modelo das plataformas que lançam milhares de peças a preço muito baixo e enviam as encomendas direto ao consumidor, as federações têxteis europeias voltaram a se reunir no salão. Elas comemoraram o fim da isenção para encomendas de até 150 euros e a criação de uma taxa alfandegária provisória de 3 euros, mas consideram a medida insuficiente e pedem uma taxa de manuseio de cerca de 10 euros por encomenda, para cobrir o custo real da fiscalização.
“A indústria têxtil europeia representa 1,3 milhão de empregos e 200 mil empresas, a grande maioria delas pequenas e médias, que aplicam alguns dos padrões sociais e ambientais mais exigentes do mundo. Elas não conseguem competir com fluxos de mercadorias que escapam em parte às nossas regras e às nossas estatísticas.”
Mario Jorge Machado, presidente da EURATEX, Confederação Europeia do Vestuário e Têxtil (tradução livre)
Por aqui, a discussão ganhou força em 2024, quando o país passou a cobrar imposto de importação sobre compras internacionais de até 50 dólares, a chamada taxa das blusinhas. O argumento europeu é o mesmo de muitos pequenos produtores brasileiros: pedir que as mesmas regras valham para todos.

A Índia no centro da próxima edição
Durante a edição de setembro, o salão anunciou o novo capítulo dos Territórios do Saber-Fazer (Territories of Savoir-Faire), um espaço editorial que já destacou a França, o Japão e Portugal. Agora a homenageada é a Índia, com foco no que o país faz há séculos: a arte da mão. Em janeiro de 2027, a feira terá programação dedicada, destaque para a tecelagem artesanal e presença reforçada de criadores indianos, em parceria com o Ministério dos Têxteis da Índia e a embaixada do país na França.
O movimento acompanha o acordo de livre-comércio entre a União Europeia e a Índia, assinado em janeiro de 2026, segundo o comunicado do salão. Vale lembrar que o Brasil também tem uma porta aberta: a parte comercial do acordo entre Mercosul e União Europeia entrou em vigor de forma provisória em 1º de maio de 2026. A lição que fica, na leitura do Canal Craft, é que a Índia chegou a esse palco com governo, artesãos e indústria falando a mesma língua.
“Esta colaboração com a Première Vision Paris oferece aos nossos tecelões, artesãos e empresas uma plataforma estruturada para dialogar com os mercados internacionais, a liderança criativa e as tendências globais.”
Neelam Shami Rao, secretária de Estado para os Têxteis da Índia (tradução livre)
Como se preparar
A próxima Première Vision Paris acontece de 26 a 28 de janeiro de 2027, no mesmo Paris Nord Villepinte, pavilhões 5 e 6. Para visitar, o profissional se cadastra no site do salão e recebe uma credencial eletrônica gratuita, o e-pass. O horário é das 9h às 18h30, e no último dia a feira fecha às 17h. Estudantes e professores são bem-vindos e têm um dia dedicado, 28 de janeiro, desde que se inscrevam e sigam as regras de acesso próprias para eles. Antes disso, o grupo realiza a Denim Première Vision, em Milão, nos dias 25 e 26 de novembro de 2026, e a Blossom Première Vision, em Paris, nos dias 9 e 10 de dezembro.
Para quem pensa em ir, o primeiro passo é definir o objetivo. Visitar para pesquisar tendências, conhecer fornecedores e observar o que se valoriza lá fora é um caminho possível para ateliês e pequenas marcas. Expor é outro nível de compromisso, porque exige amostras, capacidade de produção, preço em euro, prazos claros e documentação em inglês ou francês. Nos dois casos, vale procurar antes as entidades que apoiam a participação brasileira em feiras internacionais, como o Sebrae, a ApexBrasil e as associações do setor, que costumam organizar missões e dividir custos.
Quem não vai a Paris também pode se preparar. O resumo público do relatório de tendências está no site da Première Vision, e o salão oferece uma versão completa em francês e inglês. Mais útil ainda é começar desde já a registrar o próprio trabalho: de onde vem cada matéria-prima, qual técnica foi usada, quantas horas a peça levou e quem a fez. Essas informações, organizadas em uma ficha simples com boas fotos, são exatamente o que o mercado descrito em Villepinte está pedindo.
O que isso diz ao artesão brasileiro
Na leitura do Canal Craft, o recado de setembro é animador, com uma condição. O salão mais influente de materiais para moda da Europa está dizendo que o tempo, o gesto, a memória e a origem das coisas passaram a valer como diferencial, e esse é o território natural do artesanato. Ao mesmo tempo, o mercado quer provas: rastreabilidade, passaporte digital e selos de autoria humana mostram que, além de fazer bem, será preciso contar e documentar o que se faz.
Para o artesão, isso significa tratar a história da peça como parte do próprio produto, registrada com o mesmo cuidado dado à costura ou ao bordado. Fibras naturais brasileiras, tingimentos com plantas, bordados e rendas de tradição regional conversam diretamente com os cenários Matéria do Tempo e Matéria Selvagem. Para o mercado como um todo, o sinal é de que a tecnologia chega como apoio, cuidando da parte repetitiva e dos dados, enquanto o valor continua nas mãos de quem faz. A Índia mostrou em Paris que um país pode levar os seus artesãos a esse palco quando se organiza. O Brasil tem saber-fazer de sobra para ocupar um espaço parecido.
Fontes Comunicados de imprensa da Première Vision Paris / GL events, setembro de 2026: “Première Vision Paris: new drivers of brand competitiveness come together in Paris”; “Territories of Savoir-Faire, Chapter 2: India”. Declaração conjunta das federações têxteis europeias (EURATEX, UFIMH, UIT e signatários), “European textile sector calls for a stronger EU response to ultra-fast-fashion imports”, Paris, setembro de 2026. Première Vision, PV Season Report Outono-Inverno 2027-28 (versão resumida) e Season & Color Report Outono-Inverno 2026-27. Informações práticas de visita: paris.premierevision.com (consulta em 29/09/2026). FashionUnited, “Première Vision Paris septembre 2026: nouvelles dates, nouveaux espaces et services inédits”, maio de 2026. Agência Senado, “Sonhado há 30 anos, acordo Mercosul-UE entra em vigor”, abril de 2026. Citações traduzidas livremente do inglês pelo Canal Craft. |
Fotos: divulgação © Isiksoy Tekstil e © Carlo Pozzi" como legenda da foto das peras e romãs, no topo do texto. No pé da matéria, acrescente "Imagem de capa: © Leeum International e © Wedtex





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