Uma tarde no museu
O Canal Craft passou uma tarde no Museu da Imigração, em São Paulo, visitou com atenção três exposições temporárias e a mostra de longa duração, e agora conta um pouco do que viu e do que essas histórias dizem a quem vive do fazer manual.

O prédio da Mooca que hoje abriga o Museu da Imigração foi inaugurado em 1887 como Hospedaria de Imigrantes, a primeira parada de muita gente que chegava a São Paulo com uma mala e um ofício. Linha, agulha e tesoura sempre couberam nessa bagagem, e nesta temporada o museu está cheio delas. Duas exposições temporárias tratam diretamente do têxtil, uma terceira leva a mesma conversa para o papel e a tinta, e a mostra de longa duração guarda, entre documentos e fotografias, as ferramentas de quem costurou, tricotou e teceu para viver. O que segue é o relato da visita e, junto dele, uma leitura do que esse conjunto ensina sobre o valor e o tempo do trabalho feito à mão.
Reatar
Reatar parte de uma imagem simples: quem migra rompe laços com a família, os amigos e a paisagem, e desse rompimento sobram pontas que procuram se ligar de novo, como acontece com um fio que se parte. A mostra acompanha o caminho do próprio tecido em cinco etapas, que vão da fibra ao fio, do fio ao tecido, do tecido à roupa, da roupa ao corpo e, por fim, do uso ao resíduo.
No começo do percurso, um painel tátil convida a tocar em algodão, linho, juta, lã e seda, um sinal de que a exposição foi pensada para quem gosta de matéria-prima. Mais adiante aparecem os trajes, cada um ligado a uma comunidade presente em São Paulo. Estão ali a llamerada andina, o traje croata da Posavina, a lavradeira do Alto Minho, em Portugal, e o vaqueiro do Bumba Meu Boi maranhense. Há também o traje zulu de Nduduzo Siba, com miçangas em que cada cor tem um significado, a capulana das mulheres moçambicanas, a criação da artista senegalesa Mama Diop e as roupas da Kantupac, marca de rappers aimarás bolivianos que une o hip-hop ao aguayo, o tecido tradicional andino.
Dois momentos chamam a atenção de quem faz. O primeiro é o praiá do povo Pankararu, exposto em miniatura porque as lideranças não querem a veste ritual dentro de museus, um cuidado que a mostra respeita e explica. O segundo é um conto japonês, O grou agradecido, em que uma ave salva por um camponês volta em forma de mulher e tece panos preciosos com as próprias penas. A legenda usa a história para falar do valor do trabalho têxtil manual, que custa a quem o faz muito mais do que aparece na peça pronta.
O percurso termina no descarte e no que se pode fazer com ele. Brechós, bazares e peças criadas a partir de sobras ocupam o trecho final, entre elas vestidos de Alexandre Herchcovitch feitos com tecidos guardados desde a década de 1950. Um mapa reúne 14 endereços da região para doar e comprar roupa usada, e uma pilha de retalhos serve de material para as atividades com os visitantes.
Do tear proibido à fábrica
No meio de Reatar, uma linha do tempo vai de 1785 a 2017 e começa com um documento que merece a atenção de quem trabalha com as mãos. Em 5 de janeiro de 1785, um alvará da rainha D. Maria I mandou fechar as fábricas e manufaturas da colônia, entre elas os teares. O texto argumentava que "quanto mais se multiplicar o número dos Fabricantes, mais diminuirá o dos Cultivadores", ou seja, cada pessoa ocupada em tecer seria um par de braços a menos na lavoura e nas minas. A única exceção eram os panos grossos de algodão, que serviam para ensacar mercadorias e vestir as pessoas escravizadas.
O historiador Fernando Novais, que estudou o documento, acrescenta outros motivos. Portugal queria reservar o mercado da colônia para as próprias manufaturas e via a arrecadação das alfândegas cair com o contrabando de tecidos, sobretudo ingleses. A coincidência de datas ajuda a medir o tamanho da disputa, porque também em 1785, na Inglaterra, Edmund Cartwright patenteou o tear mecânico, um dos marcos da Revolução Industrial. A colônia era proibida de tecer no mesmo ano em que a Europa aprendia a tecer com máquinas.

A proibição durou 23 anos. Em 1º de abril de 1808, já no Rio de Janeiro, o príncipe regente D. João revogou o alvará e liberou o estabelecimento de fábricas em todo o Brasil. A liberdade chegou, porém, quando a disputa já era desigual, pois em 1810 um tratado fixou em 15% a tarifa para as manufaturas inglesas, e os tecidos feitos à máquina passaram a entrar no país com vantagem. A indústria têxtil brasileira só ganharia corpo no fim do século XIX, e em São Paulo ela se instalou no Brás e na Mooca, ao redor da Hospedaria.

Nesse ponto a história dá uma volta. Os braços que a rainha queria na lavoura passaram a ser disputados pela fábrica, que foi buscá-los entre os imigrantes recém-chegados, em sua maioria mulheres e crianças, segundo o painel. A linha do tempo registra o que isso custou: a greve geral de 1917, iniciada no Cotonifício Crespi por 400 trabalhadores, quase todas mulheres, a proibição do trabalho de menores de 12 anos apenas em 1927 e, durante a
Segunda Guerra, jornadas que em São Paulo iam de 13 a 20 horas por dia. Em 1785, tecer era tratado como um desvio de braços que deviam servir ao reino. Um século e meio depois, era a fábrica que ficava com quase todo o dia de quem trabalhava nos teares.
Há um detalhe nessa história que interessa de perto ao artesão. O painel conta que, mesmo proibida, a tecelagem continuou em pequena escala, feita em casa por mulheres ou por pessoas escravizadas. Novais confirma que a produção têxtil da colônia era pequena e artesanal, e por isso o alvará teve efeito limitado. O fazer doméstico, sem fábrica e sem registro, atravessou a proibição, e é difícil não reconhecer nele um antepassado do artesanato de hoje.
Assim bordei meus sonhos
A segunda exposição troca o panorama pela história de uma única família, que parece saída da linha do tempo da sala ao lado. Os avós de Margarida L. Kanciukaitis Pandolfo deixaram a Lituânia em 1926, com quatro filhos, atraídos pela propaganda de agentes que prometiam passagem grátis e trabalho no Brasil. Passaram pela Mooca, foram para uma fazenda de café em Ribeirão Preto e, mais tarde, voltaram à capital, onde havia vagas nas indústrias. Primeiro a lavoura, depois a fábrica, como tantos outros.
Margarida nasceu em São Paulo, filha do menino que desembarcou aos 8 anos. Morou, quando criança, na Rua dos Trilhos, a poucas quadras do museu, e cresceu entre a avó tapeceira, a mãe costureira e um tio-avô pintor. Desenhou e bordou desde cedo, mas a casa e os quatro filhos vieram primeiro. Quando eles cresceram e seguiram carreira artística, passaram a incentivá-la. Dois deles, os gêmeos Otávio e Gustavo, formam a dupla OSGEMEOS, e da convivência nasceu uma parceria em que os filhos desenhavam e a mãe bordava.
O resultado está nas paredes, onde os personagens amarelos do grafite aparecem refeitos ponto a ponto, ao lado de flores, pinturas e roupinhas em miniatura. Com esse trabalho, Margarida participou duas vezes da Bienal de Kaunas, na Lituânia, a terra do pai. No meio da sala, uma casa de madeira com beirais recortados como renda abriga a figura de uma senhora de xale azul, que borda um painel de flores cercada de novelos, rádio, sanfona e máquina de costura. Perto da cama, uma mala traz pintada a data da partida, 22 de março de 1926.
Com curadoria de OSGEMEOS, Adriana P. Alves e Arnaldo Pandolfo, a mostra é a primeira individual da artista no Brasil e faz parte das comemorações do centenário da imigração lituana. Abriu em 10 de julho e, pelo calendário do museu, tinha encerramento previsto para 6 de outubro, justamente o dia da visita do Canal Craft. Margarida morreu no início de agosto, aos 82 anos, com a exposição aberta ao público.

Tinta sobre memória
A terceira exposição troca a linha pelo pincel. Tinta sobre memória, de Luiz Fukushiro, é o resultado do programa de residência artística do museu em 2026 e parte de um silêncio. Durante a Segunda Guerra Mundial, imigrantes japoneses foram proibidos de conversar na própria língua, e o texto de parede lembra que, em 1943, a antiga Hospedaria chegou a receber japoneses encarcerados.
O artista responde com o shodō, a caligrafia japonesa, cujo nome quer dizer "caminho da escrita". Tiras de papel de bordas irregulares, escritas à mão e penduradas por fios, formam uma espécie de floresta em torno de um tronco de madeira do acervo do museu, gravado com 62 haicais por Takeo Hirata, poeta do Grupo Ipê, do centro-oeste paulista. Nesses poemas, a enxada, a terra e os trilhos do trem viram assunto, e as cerejeiras dão lugar aos ipês e às paineiras. Fukushiro vê um mesmo gesto em lavrar a terra, entalhar a madeira e compor um poema, que ele resume como "abrir sulcos para que alguma coisa permaneça". Quem borda, tece ou esculpe reconhece a ideia.
Na mostra de longa duração
A visita terminou em Migrar: histórias compartilhadas sobre nós, a exposição de longa duração do museu, aberta em dezembro de 2025 e organizada em 11 módulos. Ela trata de deslocamentos de todo tipo, mas quem chega com o olhar treinado pelas outras salas repara logo nas ferramentas. Em uma vitrine estão uma meia de tricô marrom ainda presa às agulhas, com o novelo ao lado, um jogo de agulhas azuis com a etiqueta Emilie, uma lançadeira de tear em madeira e uma lata das Meias Bresser, com o slogan "A mais perfeita meia, até hoje fabricada em teares". A marca é a mesma que aparece no mapa de Reatar, fundada em 1919 no Brás pelo italiano Fiore Feola. Em outra vitrine, uma grande tesoura de alfaiate ocupa o espaço sozinha, tratada com a importância que tem para quem vive do corte.

Perto dali fica uma arpillera feita em 2015 por Rossana Pulcinelli, do coletivo "Mujer latina, tú eres parte: no te quedes aparte". A técnica, em que retalhos são aplicados e bordados sobre um pano de base, surgiu no Chile e se tornou símbolo de resistência durante a ditadura militar. Nesta peça, feita sobre aniagem, mulheres de mãos dadas, vestidas com retalhos floridos e de estampas geométricas, cercam a frase "Juntas somos + fuertes", e várias trazem no vestido uma pegada com as cores de uma bandeira. A legenda explica que a obra nasceu de uma ação do museu com as mulheres do coletivo para discutir os rumos do acervo, e que cada participante criou a sua própria arpillera.
O tempo de quem faz
Entre os textos da sala de Margarida, uma frase assinada pelos filhos explica por que essa obra demorou a aparecer:

Muita artesã conhece essa história de perto. O trabalho manual costuma esperar a vez, atrás da casa, do emprego e do cuidado com os outros, e quando enfim ganha espaço vem acompanhado da dúvida sobre ter começado tarde. A trajetória de Margarida ajuda a responder a essa dúvida. Ela já passava dos 60 anos quando teve um bordado selecionado para uma bienal, em 2006, e fez a primeira exposição individual aos 82. Os anos dedicados à família aparecem em cada peça, como assunto e como motivo.
Essa história diz respeito a muita gente, já que o artesanato ocupa cerca de 8,5 milhões de pessoas no Brasil, segundo o IBGE, e 77% delas são mulheres, de acordo com o Sebrae. Vistas em conjunto, as salas do museu contam a esse público uma mesma história sobre o tempo de quem faz. Em 1785, a Coroa decidia onde os braços da colônia deviam trabalhar, e mais tarde foi o relógio da fábrica que ocupou quase todo o dia de quem tecia. Na casa de Margarida, o cuidado com a família veio antes do bordado por décadas. Em todos esses momentos o trabalho manual continuou, primeiro dentro de casa, depois nas oficinas e nos
coletivos, e chegou até aqui.
O trecho final de Reatar mostra aonde levou a produção sem medida, com montanhas de resíduos têxteis e um modelo que dá sinais de esgotamento. Nesse cenário, a peça feita à mão volta a ter valor porque oferece o que a produção em série não consegue entregar: origem, autoria e história. A arpillera da vitrine vale pelo que diz e por quem a fez, e o mesmo se pode dizer do tronco de Takeo Hirata e dos bordados de Margarida.
Para o artesão, fica a constatação de que a história de quem faz é parte da peça. O museu só consegue contar a vida da costureira letã Betija Luters ou do alfaiate José Suano, lembrados em Reatar, porque alguém guardou a certidão de uma e a máquina de costura do outro. Dizer de onde vem a técnica, quem ensinou e quanto tempo o trabalho levou é uma forma de dar à peça o valor que ela tem, e isso vale em qualquer idade e em qualquer fase da vida. O fio, afinal, pode ser retomado a qualquer hora.
Serviço
Museu da Imigração. Rua Visconde de Parnaíba, 1.316, Mooca, São Paulo. Bilheteria de terça a sábado, das 9h às 17h, e aos domingos, das 10h às 17h. Ingressos a R$ 16 (inteira) e R$ 8 (meia-entrada), segundo o museu.
Reatar fica em cartaz até 28 de fevereiro de 2027.
Tinta sobre memória fica em cartaz até 8 de novembro de 2026.
Assim bordei meus sonhos tinha encerramento previsto para 6 de outubro de 2026, segundo o site do museu.
Migrar: histórias compartilhadas sobre nós é a exposição de longa duração do museu.





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