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A roupa do todo dia agora ganha vida nova

29 de set.
7 min de leitura



As passarelas mostram que o toque pessoal virou o grande diferencial da moda, e esse caminho pode começar num brechó, passar pela agulha e terminar numa peça que só existe no seu armário.



Canal Craft - setembro 2026


Quem acompanhou os desfiles recentes percebeu que as roupas mais comentadas raramente eram as mais lisas. Camisas cobertas de flores em relevo, jaquetas vazadas com contorno de cristais, franjas balançando em moletons e sapatos transformados em pequenas galerias de rostinhos bordados mostram que o detalhe feito à mão voltou ao centro da conversa, trazendo com ele uma ideia que o artesanato conhece muito bem: aquilo que carrega a marca de quem fez tem um valor que a produção em série não consegue copiar.

Esse movimento conversa diretamente com outro, o do garimpo. Brechós, bazares e sebos ganharam uma nova clientela, formada por pessoas que procuram qualidade, história e matéria-prima para criar. Uma jaqueta jeans esquecida no cabide, um vestido de festa que perdeu a ocasião ou uma camisa de tecido bom com a gola gasta podem receber recortes, aplicações e bordados até se tornarem únicos.

A seguir, olhamos para sete imagens das passarelas com olhos de artesã e de artesão, pensando em como cada ideia pode ser reproduzida, adaptada e reinventada com técnicas que muita gente já domina.



Flores em relevo e o nosso ipê


Foto: divulgação - Burberry
Foto: divulgação - Burberry

Camisa com flores em relevo aplicadas em cachos.

A camisa off-white chama atenção pelas centenas de pompons amarelos aplicados em cachos, acompanhados de folhagens bordadas em verde-escuro, que se concentram nos ombros e vão se espalhando pelo corpo como flores caindo. A inspiração da passarela é a mimosa, mas a mesma lógica abre espaço para uma referência bem brasileira: o ipê-amarelo, que cobre as cidades de flores entre o fim do inverno e o começo da primavera.

O bordado brasileiro é um caminho natural para essa releitura. A técnica, conhecida pelos fios de viscose com brilho acetinado e pelas flores em relevo feitas com pontos como o rococó e o nó francês, permite montar cachos de flores em forma de trombeta, parecidas com as do ipê, presos a galhos finos e quase sem folhas, do jeito que a árvore aparece quando está florida. Numa camisa lisa garimpada, os arranjos podem se concentrar na gola, nos bolsos ou num dos ombros, enquanto algumas flores soltas pela frente dão movimento ao conjunto. Para quem quer o volume da passarela com menos horas de agulha, pompons pequenos de lã ou de chenile resolvem muito bem.


Franjas que nascem da sobra


Foto: divulgação - Onitsuka Tiger
Foto: divulgação - Onitsuka Tiger

Moletom estampado com franjas no mesmo tecido.


O moletom amarelo, com estampa floral em traço cinza, ganhou franjas longas nas mangas e na barra, cortadas no mesmo tecido da peça. Imagine esse efeito saindo de uma reforma: um vestido longo estampado, encontrado num brechó, vira casaco ou jaqueta curta, e o comprimento que sobra da saia é cortado em tiras finas para formar as franjas. Nada se perde, e o resultado ganha unidade porque estampa e acabamento conversam entre si.

Malhas e moletons são os tecidos mais práticos para isso, já que não desfiam depois de cortados. Em tecidos planos, vale dobrar as tiras ao meio e costurar, formando pequenos tubos, ou passar um fixador de bainha nas pontas. As franjas aparecem em muitas coleções recentes, e aplicá-las nas costuras de ombro, na pala e na barra é uma forma simples de atualizar peças que estavam paradas no armário.



O coração vazado do jeans


Jaqueta jeans com recorte em coração contornado por cristais.


 Foto: divulgação  -   Philipp Plein
 Foto: divulgação - Philipp Plein

Na jaqueta jeans curta, o destaque está nas costas: um grande recorte em forma de coração, contornado por uma fileira de cristais, que se repete em tamanho menor nas laterais da calça. A ideia funciona muito bem numa jaqueta de brechó, porque o jeans é resistente, aceita recortes sem perder a estrutura e costuma aparecer em qualquer garimpo.


O segredo está no acabamento da borda. Depois de riscar o molde e cortar, a beirada precisa ser firmada com viés ou com uma bainha estreita para não desfiar, e é nesse contorno que entra a criatividade. O ponto ajour, bordado vazado que trabalha com fios retirados ou afastados da trama, cria uma moldura delicada, quase rendada, que contrasta bem com o peso do jeans. Também dá para contornar o recorte com bico de crochê, corrente de strass, cordão de sutache ou uma tira de renda antiga reaproveitada. Quem prefere não deixar a pele à mostra pode fechar o coração por dentro com tule, renda ou um tecido estampado, criando uma janela colorida nas costas.




O colar que parece gravata


Foto: divulgação - MSGM
Foto: divulgação - MSGM

Colar de franjas acetinadas sobre camisa xadrez.

Sobre a camisa xadrez azul, um colar de franjas verdes, finas e brilhantes cai como uma gravata comprida e assimétrica. O efeito depende de um fio acetinado e leve, que escorre com o movimento do corpo, como a viscose, o fio de seda ou um rabo-de-rato bem fino.

Para reproduzir, a base pode ser uma gargantilha de crochê justa ao pescoço, feita em ponto baixo com o mesmo fio, na qual os fios longos são presos em grupos com o nó cabeça de cotovia, o mesmo usado nas franjas de macramê. Deixar um lado mais comprido que o outro garante o ar despojado da foto. É um acessório de baixo custo, rápido de fazer e com bom potencial de venda, porque transforma uma camisa básica em poucos segundos.



Renda, babados e um fru-fru de tule


Foto: divulgação - Simone Rocha
Foto: divulgação - Simone Rocha

Vestido de renda com cascata de babados e laço.


O vestido de renda branca, bordado com flores em relevo, recebe de um lado uma cascata de babados pretos em forma de pétalas, arrematada por um laço grande e um enfeite de miçangas. A imagem mostra como uma peça clássica, como um vestido de noiva ou de festa guardado há anos, pode ganhar uma leitura nova com uma única intervenção assimétrica.

A cascata pode ser feita com pétalas de organza ou de tule sobrepostas em camadas e costuradas numa faixa de base que desce do ombro até o quadril. Na organza sintética, as bordas das pétalas podem ser levemente queimadas com cuidado, o que dá o acabamento ondulado. O tule é leve, barato e fácil de franzir, e por isso um fru-fru volumoso em cor contrastante, como preto, vinho ou verde-musgo, muda completamente o vestido sem exigir ajustes na modelagem. Parece inusitado? Pois é justamente essa ousadia que vira assinatura.


Estampa com brilho bordado


Foto; divulgação - Lovebirds
Foto; divulgação - Lovebirds

Conjunto estampado com paetês e bordados sobre o desenho.


O conjunto rosa, com camisa ampla e saia midi, mistura estampa botânica em traço preto com paetês transparentes e bordados de miçanga que acompanham os desenhos, como se algumas flores ganhassem relevo e brilho. Nesse caso a estampa funciona como risco pronto, porque o bordado segue contornos que já existem no tecido, o que facilita muito a vida de quem está começando.

Uma camisa ou saia estampada de brechó pode receber o mesmo tratamento, com paetês, canutilhos, miçangas e pontos simples, como o haste e o atrás, contornando folhas e flores. Vale escolher apenas alguns motivos para destacar, já que o encanto está no contraste entre as áreas bordadas e as que ficam lisas. Ah, e sim: vale usar Havainas neste look.


Eles que contam histórias


Foto; divulgação - Burberry
Foto; divulgação - Burberry

Sapato com maxi-paetês e rostinhos bordados em miçanga.


O sapato de salto, em tela transparente com debrum vermelho, é coberto por maxi-paetês lilás, vermelhos e brancos, alguns com pequenos rostos bordados em miçanga, além de arabescos em relevo. É uma peça divertida, quase uma brincadeira, que mostra como o calçado também pode servir de suporte para o trabalho manual.

Um scarpin antigo ou um sapato boneca garimpado aceita bem esse tipo de intervenção. As maxi-lantejoulas podem ser costuradas quando o material permite ou coladas com adesivo próprio para calçados, e os botões antigos, daqueles guardados em latas de família, entram como alternativa charmosa e cheia de memória. Pintar ou bordar carinhas nos botões e nas lantejoulas deixa o par com humor e personalidade.

 


Garimpo é a nova moda

O Brasil tem hoje cerca de 118 mil brechós em atividade, segundo o Sebrae, e o mercado de roupas de segunda mão tem projeção de movimentar R$ 24 bilhões no país. Na capital paulista, o número de brechós é aproximadamente 50% maior do que em 2019, de acordo com o Sebrae-SP. Lá fora, o relatório anual da plataforma ThredUp, feito com a consultoria GlobalData, projeta que o mercado global de roupas usadas chegue a US$ 367 bilhões em 2029, crescendo em média 10% ao ano.

Por trás dos números existe uma mudança de olhar. Comprar usado virou sinônimo de escolha consciente, de economia e de estilo próprio, e para quem cria o brechó funciona também como estoque de matéria-prima, com tecidos de qualidade que já não se encontram com facilidade, botões de madrepérola, rendas, zíperes de metal e forros inteiros.

Os sebos entram nessa história por outro caminho. Entre os livros usados costumam aparecer revistas antigas de moda, costura, tricô, crochê e bordado, com moldes, gráficos e riscos que continuam atuais e servem de ponto de partida para criações novas. Um risco de bordado dos anos 1970 aplicado numa jaqueta garimpada é praticamente a definição de peça autoral.

Na hora do garimpo, vale olhar primeiro o tecido e as costuras e só depois o tamanho, porque ajuste se faz e tecido bom é difícil de achar. Conferir a etiqueta de composição ajuda a prever como a peça vai reagir ao bordado e à lavagem, e imaginar onde entraria o recorte, a aplicação ou a franja transforma cada cabide numa possibilidade.


O seu toque

Todas as imagens desta matéria saíram de grandes desfiles, mas as técnicas por trás delas circulam há gerações em ateliês, cursos e rodas de bordado pelo país. A peça pronta passa a ser ponto de partida, e a mão de quem cria decide o que ela vai contar daqui em diante. Garimpe, experimente, erre e refaça, porque é assim que nasce a roupa que só você tem.


Fontes

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