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Todo mundo pode

há 1 dia
3 min de leitura

Manchados, tie-dyes e degradês voltam ao streetwear do verão 2027/28 com cara de ateliê e levam para a vitrine técnicas que o artesão conhece bem.


Existe uma estampa que nasce do acaso controlado: o tecido é amarrado, mergulhado no banho de tinta e aberto depois, quando ninguém sabe ao certo o desenho que vai aparecer. É essa sensação de peça única que move uma das apostas de estampa para o streetwear da primavera-verão 2027/28. Os efeitos manchados, os tie-dyes, os degradês e os respingos de tinta ganham passarelas e lookbooks com um direcionamento mais artístico, em roupas femininas, masculinas e sem gênero, e chegam com sinal verde também do lado comercial, já que as análises de tendência apontam forte crescimento e indicam o tema como investimento para maiores volumes.


O tie-dye amadurece

O tie-dye continua relevante, porém mais elaborado do que a espiral colorida que marcou os anos 1960 e 1970. Nas coleções, ele forma listras irregulares, como faixas que parecem desenhadas à mão ao redor do corpo, e efeitos marmorizados que lembram pedra ou água em movimento. Em uma camiseta de malha canelada com bermuda combinando, as faixas em azul-marinho, lilás e cinza percorrem a peça em ritmo quase gráfico, enquanto em um suéter verde uma única linha branca separa o tom escuro dos ombros do restante do corpo.


Degradês que vendem

Os fades e ombrés, em que uma cor se dissolve aos poucos em outra, ficam com a parte mais comercial da tendência. A jaqueta corta-vento que passa do laranja ao amarelo e termina em marrom brilhante é um bom exemplo, assim como as parkas em que o tom escurece da cintura para baixo. No jeanswear, a marca japonesa Beautiful People explora transições suaves entre diferentes azuis, reforçando a ideia de um desgaste que acontece devagar sobre a superfície do tecido.


A mão aparece

Em outra vertente, respingos de tinta e pinceladas irregulares deixam a roupa mais expressiva e experimental, com jeito de tela de ateliê. Há jaquetas com manchas escuras que escorrem pelos ombros, blusões pretos pintados de branco como se tivessem passado pelas mãos de um pintor e vestidos em que o vermelho parece ter sido lançado sobre o tecido cru. Nesse caminho, a estampa se aproxima da intervenção manual e do processo criativo, e o resultado depende do gesto de quem fez.


Os efeitos manchados também podem vir sobrepostos a outras padronagens, principalmente clássicos como o xadrez, ou combinados a letterings, o que gera composições mais personalizadas. Em alguns looks, a mancha divide espaço com estampas geométricas, bordados de paetê ou peças de jeans reaproveitadas e amarradas umas às outras.


Neutro na base, cor no detalhe

Na cartela, predominam bases neutras, como off-white, preto e cinza, que equilibram a força dos efeitos e facilitam a venda. Os tons vibrantes surgem de forma pontual, concentrados nos desenhos e nas intervenções gráficas, com destaque para o laranja, o vermelho e o verde intenso. A combinação funciona bem em calças baggy e cargo, camisetas, vestidos assimétricos, camisas e conjuntos.




Técnica antiga, linguagem nova

O título desta matéria tem dois sentidos. O primeiro está na própria roupa, pensada para corpos e estilos diversos, sem divisão rígida entre feminino e masculino. O segundo está no feitio, porque boa parte dessas estampas vem de técnicas de tingimento por reserva que atravessam culturas e séculos, como o shibori japonês, o bandhani indiano e o adire dos iorubás, na Nigéria, em que amarrar, costurar ou dobrar o tecido impede que a tinta alcance certas áreas. Os degradês lembram o tingimento por imersão, em que a peça entra no banho aos poucos, e os marmorizados têm parentesco com as técnicas que fazem a tinta flutuar sobre a água antes de passar para a superfície.


Para o artesão, isso abre uma porta interessante. Quem já domina tingimento, pintura em tecido, descoloração ou customização encontra na tendência um caminho para camisetas, ecobags, lenços, bonés e peças de jeans reaproveitadas, com a vantagem de que cada unidade sai diferente da outra. Como a indústria deve investir no tema em grande volume, a peça feita à mão ganha valor justamente naquilo que a máquina imita com esforço: o acaso, a irregularidade e a marca do gesto. Produtos como água sanitária e corantes pedem cuidado, com uso de luvas, ambiente ventilado e descarte correto da água do tingimento.

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